Arquivo de Pensamentos

Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez. (Jean Cocteau)

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sexta-feira, janeiro 14, 2005

Observando o fluxo dos navios

Sem dúvida essa cidade é muito bacana: Estou trabalhando num edifício que fica de frente para o porto. São poucas as cidades com movimento portuário tão grande como o nosso. Menos ainda são aquelas que o porto fica tão próximo da população em geral. Quando os navios estão fazendo manobra na parte mais larga da Baía de Vitória, os navios devem ficar a cerca de 20 ou 30 metros dos pedestres.

Daqui da janela do 6o andar, dá pra acompanhar o movimento dos navios dos Portos de Capuaba e Vitória, o que já virou meio que um hobbie. Identificar as cias que operam nestes portos, como MSC, Maersk Land, Gearbulk e o mais legal de todos: Grimaldi Lines. Esse é um navio amarelo e branco, bem alto e fechado, que mais parece um caixote. MSC e Gearbulk também possuem alguns navios bem maiores e novos que são muito bacanas tbm. Mas certamente nenhum deles se comparam aos transatlânticos que encostam aqui de vez enquando.

Já tem uns dias que tem um navio da Coréia do Norte (observar as bandeiras tbm é uma diversão à parte) tá encostado aqui sendo carregado, provavelmente de café. Este é certamente um dos navios mais feios que vi por aqui, com um agravante: A tripulação do navio também parece ser bem sofrida, com aparência suja e cansada.

Apesar desta introdução tão legal, onde quero me prender é justamente nesta parte: A realidade da tripulação destes navios. Deve ser um negócio bem esquisito, passar tanto tempo dentro de um navio, longe da família, dos amigos, da própria casa, sempre com as mesmas pessoas ao seu redor, com o agravante da extrema maioria ser composta por homens.

Junte-se a isto o fato de que quando finalmente o navio chega no seu destino, o sujeito está num país com uma realidade bem diferente e distante da sua, e em geral sem dominar a língua do local. Fico observando os caras no navio olhando para a cidade, sempre com o olhar distante, pensando sabe-se lá em que.

Eu já me sinto incomodado quando estou numa roda de amigos onde não conheço o assunto tratado (por exemplo, em rodas sobre medicina ou psicologia), quem dirá estar num lugar em que nem a língua eu sou capaz de entender. Deve ser uma sensação muito estranha.

Certamente esse é o tipo de trabalho que nunca me chamaria a atenção, ainda mais por que eu tenho muito receio de mar. Até acho bacana a idéia de fazer uma viagem de navio, mas somente a passeio e jamais trabalhar com isso. Imagino ainda como deve ser estranho uma noite dentro de um navio em alto mar, com escuridão para todos os lados, pra piorar ainda mais a situação, com uma chuva bem pesada pra tornar o ambiente ainda mais sombrio.

Você sabia...

Que um navio, assim como uma embaixada é considerada um pedaço do país que ele representa? Desta forma para entrar no navio você precisa de autorização expressa do comandante do navio, e que no caso de algum fugitivo entrar dentro de um navio ou de uma embaixada, a polícia nada pode fazer. Neste caso, o procedimento a ser adotado é emitir um pedido de extradição.

Eu não sei...

Se a tripulação de um navio tem autorização para fazer um "tour" pela cidade. Considerando que no navio ele está em seu próprio país, então ele não precisa de visto para estar ali, mas a partir do momento em que ele entra em solo estrangeiro, ele precisaria de um visto. E aí? A tripulação pode andar pela cidade ou não? Aqui perto do porto eu nunca vi nenhum estrangeiro circulando pela cidade, o que me leva a crer que isso é proibido. Mas por outro lado, é sabido que esses caras usam os serviços das secretárias da beira do cais (nome bem bonito para as "prostitutas", né?), mas não sei até onde essa visitinha deles é dentro da lei.

Por hoje é só.
Vinícius Ronconi - Controlador do Fluxo do Porto

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