Arquivo de Pensamentos

Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez. (Jean Cocteau)

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Sexta-feira, Agosto 26, 2005

Revisão do Pacto Federativo

Está em discussão na Assembléia Legislativa do Estado do Espírito Santo a emancipação do Distrito de Santa Cruz, atualmente pertencente ao município de Aracruz. Existem outros processos em andamento, para tornar independentes outros distritos: O de Pedra Azul e o de Guriri, que estão ligados, respectivamente, aos municípios de Domingos Martins e São Mateus.

Não há como negar que estes distritos são suficientemente conhecidos pelos capixabas, mas, em contrapartida, uma pergunta precisa ser feita: Estes distritos teriam condições de se manter autonomamente ou seriam apenas novos municípios completamente dependentes do repasse de verbas federais?

No caso específico de Santa Cruz, tenho a impressão de que esta não seria uma boa saída, já que o município de Aracruz é um dos mais ricos do estado, em função da existência da Aracruz Celulose no município. No caso de uma divisão, um único município seria beneficiado com os impostos e benfeitorias geradas pela referida organização.

Existem outros movimentos no Brasil para a criação de novos estados: o Maranhão do Sul e uma divisão do estado do Mato Grosso (ou Mato Grosso do Sul – minha memória está me traindo neste momento).

Fico me perguntando qual é o real motivo pelo desejo em criar novos estados ou municípios no Brasil, já que a maioria deles reclama que não possui verbas suficientes para se manter financeiramente. Acredito que o Brasil necessite na realidade de uma revisão do seu pacto federativo, de forma que fosse realizada uma reorganização e uma redivisão do território brasileiro.

Alguns estados poderiam muito bem desaparecer do mapa, como é o exemplo do meu próprio estado. Outros também poderiam ser facilmente ser incorporados aos seus vizinhos, como Sergipe e Alagoas, Acre, Roraima e Amapá. Tocantins poderia se tornar parte integrante do estado de Goiás.

Mas o problema maior se encontra nos municípios. Existe necessidade de 78 municípios no estado do Espírito Santo? Quantos destes municípios conseguiriam sobreviver sem a necessidade de tantos repasses federais? Possivelmente chegaríamos à conclusão de que o estado precisaria de menos do que 20 municípios.

Já em outros estados, algumas cidades possuem problemas diferentes. Por exemplo, as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro poderiam muito bem ser divididas em 3 ou 4 cidades diferentes para que tornasse a administração mais simplificada.

É claro que não espero que esta seja uma atitude a ser tomada em curto prazo, mas na possibilidade da convocação de uma nova assembléia constituinte, certamente tentaria encaminhar este tipo de proposta para os parlamentares eleitos para este fim.

Enquanto isto não acontece, vamos aturando municípios deficitários que servem unicamente como cabides de empregos para uma meia dúzia.

Quarta-feira, Agosto 10, 2005

Os deputados esperam uma pizza

Terminou hoje o prazo para os deputados José Dirceu (PT-SP), Sandro Mabel (PL-GO), Francisco Gonçalves (PTB-MG) e Romeu Queiroz (PTB-MG) renunciassem a seus mandatos para evitar um processo de cassação e conseqüente perda de direitos políticos. Para minha surpresa, nenhum deles esboçou qualquer tipo de movimento rumo à renúncia.

Em minha modesta, e leiga, opinião, este fato indica que os referidos parlamentares não esperam que estes processos terminem de maneira contrária a seus interesses. Por que motivo? Será que são inocentes de fato? Será que esperam que tudo acabe numa grande e amarga pizza?

O único deputado que tenho a impressão de que é mesmo inocente é o Dep. Sandro Mabel (PL-GO). Não é que eu ache este indivíduo um santo, mas é que a acusação que recai sobre ele parece muito frágil ou até mesmo mentirosa. Uma deputada do chamado "baixo clero" do PSDB goiano, em exercício de seu primeiro mandato na Câmara, acusa o Dep. Sandro Mabel de tentar convencê-la a mudar de partido mediante o recebimento de um milhão de reais, mais bônus mensal de R$ 30.000,00.

Tenho a impressão de que se trata de muito dinheiro para um deputado tão inexpressivo. Considerando a compra de 30 deputados, um número muito menor do que a quantidade de deputados que se bandearam para os partidos da base aliada do governo após as eleições da casa, isto significaria 30 milhões de entrada e inúmeras suaves prestações de R$ 900.000,00. Isto sem falar na mesada paga aos outros deputados que compõem a base aliada.

Pelo menos desta acusação, eu acho que o Dep. Sandro Mabel sai ileso. Se não for assim, eu jamais me sentaria à mesa com o digníssimo deputado para um inocente jogo de truco, afinal este cara blefa muito bem!

Já para o Dep. José Dirceu, vejo apenas duas explicações para a não-renúncia: a primeira, infinitamente menos provável, é que ele tenha chegado à conclusão que não vale a pena seguir na vida política. Quando o processo chegar ao fim e ele perder seu mandato, ele volta pro interior de São Paulo, compra um pedacinho de terra e vai lá viver uma vida tranqüila. Já na hipótese mais provável, ele acredita que será inocentado das acusações que recaem sobre seus ombros.

Existe, inclusive, uma estratégia para o caso da pizza não acontecer: Como as acusações de quebra de decoro parlamentar se referem a ações realizadas enquanto ele estava licenciado do cargo de Deputado Federal, para assumir a chefia da Casa Civil, ele não poderia ser julgado pela Câmara dos Deputados.

Não conheço os detalhes da lei que regulamenta esta situação, portanto minha opinião não é embasada por dispositivos legais: se ele apenas se licenciou e pôde assumir novamente o cargo, sem a necessidade de passar novamente por aprovação popular, então podemos considerar que ele não se destituiu completamente dos benefícios concedidos a um deputado. Portanto, se ele ainda possui os benefícios, deveria então cumprir seus deveres.

Torço para que eu esteja errado, mas a impressão que tenho é que estou numa enorme pizzaria aguardando meu pedido. A pizza ainda não saiu do forno, mas o cheiro já está impregnando o ar, de forma que já é possível perceber que algum dos ingredientes utilizados estava completamente podre. E o pior é que ninguém percebeu.

Vinicius Ronconi - Sofrendo os efeitos da indigesta pizza que vem por aí

Segunda-feira, Agosto 08, 2005

Acompanhe o trabalho de deputados e senadores do seu Estado

Que tal se cada cidadão cumprir seu papel de fiscalizar as ações das pessoas que nós elegemos para nos representar? Existe uma forma muito simples para realizar este acompanhamento: entrar periodicamente nos sites do Congresso Nacional, do Senado e da Assembléia Legislativa Estadual. Em todos os casos, o site possui um endereço eletrônico que pode ser utilizado para entrar em contato com seu parlamentar preferido.

No caso do Senado e da Câmara, é possível pesquisar todos os parlamentares por diferentes critérios, como nome, Estado ou mesmo filiação partidária. Pessoalmente, não recomendo utilizar este último critério, já que nossos representantes costumam ser tão fiéis aos partidos quanto às promessas realizadas durante a campanha.

Vamos procurar os representantes do nosso estado, questioná-los sobre determinados temas e conferir como eles votaram! Sim, estes sites permitem acompanhar os votos realizados por cada parlamentar. Para que a democracia possa funcionar corretamente em nossa nação, precisamos cumprir nossos papéis, ao invés de ficarmos simplesmente deitados em berço esplêndido. Vamos tirar nossas bundas das cadeiras, como o próprio presidente da República nos convocou.

Devemos aproveitar estes últimos meses para descobrir se nossos representantes nos dão ouvidos. Que tal mandar um e-mail e verificar se temos resposta? Precisamos incluir este critério na hora de escolher nossos próximos representantes. Afinal, de que adianta escolher um representante se ele não entra em contato conosco e não responde a nossos questionamentos?

Até o momento fiz uma única experiência com os deputados capixabas: enviei um e-mail para cada um, questionando sobre o posicionamento quanto à política do déficit nominal zero, criada pelo deputado e ex-ministro Delfim Netto. Para minha infelicidade, apenas o deputado Marcus Vicente (PTB) se dispôs a responder. Só para constar: para minha felicidade, ele se colocou favorável à proposta do colega de câmara.

Precisamos nos conscientizar que tão importante quanto votar é acompanhar de perto os passos de nossos representantes. Isto certamente servirá para diminuir a impressão de que, uma vez no poder, os políticos podem fazer qualquer coisa impunemente. Desta forma eles terão certeza de que existe alguém fiscalizando suas ações e os cobrando pelos seus atos.

Vinicius Ronconi

Domingo, Julho 24, 2005

Importante vitória dos estudantes capixabas

Após um longo recesso de quase cinco meses, retomo este blog como se nada tivesse acontecido.

Acabo de ler no site GazetaOnline (neste link) que após quase uma semana de manifestações dos estudantes da Grande Vitória, o Governo do Estado optou por revogar o aumento do preço das passagens. Fico, realmente, muito feliz com sábia decisão do governo e esta felicidade não se resume ao bolso.

Mais importante do que isto é mostrar aos nossos não tão amados governantes que o caldo está prestes a entornar. Tenho certeza de que esta manifestação não aconteceu apenas pelo aumento das passagens em si, mas por causa de todo o conjunto da obra política atual. E no caso capixaba, podemos considerar tanto o cenário federal, como o cenário estadual.

Mobilizações recentes da sociedade civil têm mostrado aos governantes que estamos, mesmo que aos poucos, adquirindo maior consciência do poder que possuímos. Vimos manifestações recentes dos estudantes de Florianópolis, Salvador e agora de Vitória contra o aumento de tarifas no transporte público, manifestações do povo de Rondônia contra o escândalo na Assembléia Legislativa daquele estado. Ocorreram também protestos de diversos setores contra a famosa, e possivelmente já esquecida por muitos, MP232 no início do ano, que aumentaria ainda mais a carga tributária para empresas prestadoras de serviço.

São vitórias ainda tímidas se comparadas ao nosso poder, mas parece que aos poucos os brasileiros estão se lembrando da força que as manifestações púbicas e pacíficas possuem. Lembrávamos com orgulho de que fomos capazes de ir às ruas para derrubar um presidente, mas havíamos deixado o poder de lado para ficarmos apenas com um certo saudosismo. Um pensamento equivocado de que os governantes haviam aprendido a lição e que a qualquer momento poderíamos repetir o feito.

Quem sabe estes estejam sendo os primeiros passos para a renovação da política e dos políticos do nosso país. Acredito que, apesar do constante surgimento de novas irregularidades, nossos líderes políticos estão ficando um pouco mais receosos antes de fazer uma maracutaia. A imprensa tem desempenhado muito bem o chamado "jornalismo investigativo", a polícia federal e outros órgãos governamentais parecem mais atentos e capacitados para apurar irregularidades, e a própria população tem se mostrado mais consciente sobre seu papel na política.

Torço para que esta consciência se reflita em uma melhora na memória da população, para que no próximo ano possamos fazer uma grande renovação nos poderes executivo e legislativo federal e estadual. Que aqueles nomes sempre envolvidos em tramóias com o nosso dinheiro sejam banidos da nossa política, e aqueles que realmente demonstram trabalhar em prol da população possam se fortalecer. E que aqueles novos nomes que chegarem, saibam que estarão sendo constantemente vigiados e cobrados.

Vinicius Ronconi - acreditando na bonança após a tempestade

Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005

Aborto, Controle de Natalidade e Pobreza

A discussão do aborto parece ter voltado à cena nacional após a eleição do Sr. Severino Cavalcanti para a Presidência da Câmara dos Deputados. Este digno senhor se coloca de maneira taxativa contra o aborto, e vários outros pontos, que o coloca numa posição ultraconservadora.

Certamente é um assunto polêmico, onde os dois lados costumam colocar argumentos bem convincentes. Aqueles que se colocam contra argumentam que isto poderá levar a uma menor preocupação, principalmente dos jovens, quanto à sua conduta sexual. Afinal, se por acaso a infeliz engravidar, torna-se muito mais simples dar um jeito no erro. Existem ainda aqueles que consideram que aquele serzinho dentro da barriga da mãe já é um ser vivo, e que abortá-lo seria dar cabo a uma vida, sendo portanto uma forma de assassinato.

Realmente estes argumentos possuem lá seu fundo de verdade. Mas sendo honestos, quem quiser fazer um aborto, vai fazê-lo de qualquer forma. Seja em clínicas clandestinas, seja tomando qualquer coisa para matar a criança (e algumas vezes até mesmo a própria mãe), ou no caso dos mais ricos, embarcar no "Navio da Morte", que busca as gestantes arrependidas nos portos da Europa, vão para regiões de águas internacionais, para que lá possam praticar o aborto de forma impune.

Na prática, aborto é igual consumo de drogas. Hoje em dia, quem quer fazer, faz. Independente da legalidade do ato. Coibir a prática não é uma forma de conscientizar ninguém.

Por outro lado, a liberação irá reduzir os riscos daqueles que desejam fazê-lo, já que poderão realizar o aborto com o amparo de profissionais devidamente preparados, em locais adequados para a prática. Outra grande vantagem é dar à mulher a chance de ter o controle sobre seu corpo, e sua vontade atendida. Afinal, será que vale a pena levar adiante uma gravidez que a própria mãe rejeita? Qual será o futuro desta criança?

Mas o ponto que mais me chama a atenção, é a possibilidade de redução da pobreza. Todos sabemos que quem tem muitos filhos atualmente são as mulheres pobres. As mães de classe média para cima, costumam ter no máximo dois filhos, enquanto as mães muito pobres costumam ter tantos filhos quanto conseguirem, já que não possuem acesso à informação, e quando conseguem ter acesso a isto, não conseguem ter acesso aos métodos contraceptivos.

E se as coisas continuarem desta maneira a pobreza no Brasil vai aumentando exponencialmente, já que um casal de "ricos" vai gerar apenas um ou dois descendentes, enquanto um casal de pobres irá gerar quatro, cinco, seis, e como conheço em alguns casos, sete filhos! Se aplicarmos isto mais uma vez, os dois filhos ricos gerarão dois ou quatro novos ricos, enquanto os 7 filhos pobres terão gerado quase 50 novos pobres! (7 filhos para cada um dos 7). Que tal tentar realizar este exercício considerando aí 3 ou 4 gerações, para que possamos imaginar o Brasil daqui 75 ou 100 anos? E sendo honestos, a possibilidade destes pobres se tornar rica, é cada vez menor, principalmente se considerarmos que a educação para os pobres no Brasil é ridícula.

Por isto eu acredito que dar aos pobres o acesso ao aborto é uma forma paleativa para a redução da pobreza. Percebam: forma paleativa. Não podemos nos basear apenas nesta ação para mudar a realidade do país. Sem investimento em educação, não há como mudar o país, mas isto é assunto para outro post.

Indo além da prática do aborto, o planejamento familiar também é indispensável. E em alguns casos, ele deveria ser realizado pelo próprio Estado, e não mais pela família. Se uma família com menos renda inferior a 5 salários mínimos chegou ao terceiro filho, não deixe essa mulher sair do hospital sem torná-la estéril. Aproveite que a mulher já está ali no hospital e já corte o mal pela raiz. E para as mulheres que quiserem realizar a operação voluntariamente, serão todas elas aceitas.

Posso parecer incoerente, já que inicialmente defendi que a mulher precisa ter sua vontade respeitada em querer realizar o aborto e agora quero tirar a liberdade de querer decidir quantos filhos ela terá. Aí entramos na parte do direito em que a coletividade tem prioridade em relação a individualidade. Uma família com mais filhos que ela é capaz de criar irá implicar em gastos para o Estado. Se uma família não tem como comprovar condições para criar seus filhos, então o Estado deve interferir nesta situação.

Vinícius Ronconi - Pela legalização do Aborto

Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

Vale a pena tanto sofrimento?

Neste fim de semana vi numa livraria lá perto de casa um livro que me chamou a atenção: "Salvando Vidas", ou algo parecido com isto. O livro na realidade é uma defesa à eutanásia, escrito por um sujeito com conhecimento de causa.

Lendo as orelhas do livro, vi que o sujeito é pai de um menino de 17 anos de idade, que durante um aniversário em sua casa foi pular na piscina, bateu com a cabeça no fundo e foi parar no hospital. O menino passaria o resto da sua vida como um vegetal. Não teria movimentos e pelo que entendi, não seria capaz nem mesmo se se manter acordado sem ajuda de aparelhos. O menino passou dez dias no hospital, lutando entre a vida e a morte, e finalmente a Sra. Morte venceu.

O livro descreve a angústia deste pai durante os dez dias, e suas dúvidas quanto a manter os aparelhos ligados ou não, se valeria a pena continuar lutando ou simplesmente aceitar a realidade. Não consegui ler se o sujeito desligou os equipamentos para que o filho pudesse descansar ou se a morte foi mesmo inevitável.

Seja lá como foi o fim desta história, acho o questionamento do pai válido. Até que ponto vale a pena se valer de tantos recursos em determinadas situações? Será que não estamos apenas aumentando o sofrimento do enfermo e de sua família? Não seria isto um masoquismo sem tamanho, disfarçado das mais diversas roupagens de amor e bondade? E muitas vezes: Será que isto não se passa de um tremendo egoísmo daqueles que estão saudáveis, querendo evitar a morte de um ente, mesmo que isto signifique mais dor para o moribundo? Um egoísmo que não nos deixa pensar no sofrimento de um doente, simplesmente para que não tenhamos que encarar uma realidade?

Pude observar de perto duas pessoas que faleceram devido ao câncer, e vi como a fase terminal é dolorosa. E irreversível, pelo menos com nossos conhecimentos da medicina. Em alguns momentos, uma destas pessoas chegou a pedir que o medicamento que lhe era dado fosse interrompido, para que ela pudesse descansar logo de uma vez. Mas os médicos e parentes insistem em tentar reverter algo que não somos capazes de resolver.

Até que ponto estamos de fato pensando no doente? Se isto fosse realidade, o estudo de células tronco e clonagem não estaria proibido até os dias atuais. Por que se negar a desenvolver algo que possivelmente ajudará a encontrar a solução para algumas das piores doenças que conhecemos?

Se querer estudar célular troncos e clonar seres humanos é querer brincar de ser Deus, será que ficar prolongando a vida de uma pessoa que sofre de uma doença irreversível, mesmo que isso lhe cause mais sofrimento do que a morte, não é brincar de ser Deus da mesma maneira? E o pior, um deus que não é o deus que a maioria de nós acredita, seja ele qual for. Pois o Deus das principais religiões no mundo não são deuses sádicos, que se divertem enquanto observam os doentes gemendo de dor enquando lhes é dado um medicamento para que seus dias de agonia se prolonguem.

Temos que largar o egoísmo de lado, e deixar de usar pesos e medidas diferentes de acordo com a conveniência. Se é para tentar salvar vidas, além de mantermos aparelhos ligados, devemos também apoiar pesquisas e desenvolvimento genético / tecnológico.

Outro fator importante é que, sempre que possível, a palavra final seja do próprio enfermo. Por via das dúvidas, caso isto realmente venha a acontecer algum dia, já deixo registrada minha opinião: Se minha situação for irreversível, podem mandar desligar os aparelhos que me deixam vivo, se é que podemos assim dizer. Doem meus órgãos, cremem o que sobrar para não ficar gastando espaço, que é algo cada dia mais caro e escasso e depois disso já não me importa muito. Façam o que quiserem com as cinzas.

Vinicius Ronconi - Favorável à eutanásia

Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

Ninguém se importa com a educação (ou "ençino herrado")

Vou aproveitar hoje uma discussão que tivemos ontem durante a aula de Filosofia: Quais são os problemas da educação brasileira. Muitas teorias são levantadas a respeito, como o problema da má remuneração dos professores, talvez a falta da merenda escolar ou livros didáticos nas escolas públicas. Na realidade acho que o problema é muito mais grave do que isto. E o problema não é apenas do governo e educadores. Talvez ele seja a parte com menor culpa nesta história toda.

Não vou me deter muito nos problemas secundários. Para ser bem direto, talvez até simplista em demasia, se problema de remuneração de professores, merenda ou livros resolvesse alguma coisa, o ensino particular formaria milhares de gênios e pensadores por ano, mas sabemos que não é bem assim. Mesmo em escolas particulares o problema se repete. Os alunos não possuem iniciativa, não são incentivados a pensar. Basta fazer a mesma pergunta de uma forma diferente para ver diversas caras de espanto dentro de uma sala de aula.

Este sim é o maior problema na nossa educação. Nós somos ensinados a simplesmente ouvir o que o professor diz, decorar uma meia dúzia de coisas para colocar num pedaço de papel que insistem em chamar de prova. Prova de que? Só se for da capacidade de memorização dos alunos. Já nos primeiros anos as crianças são reprimidas para se adaptar ao sistema. Seus questionamentos são ignorados, elas precisam calar a boca para ouvir os professores falando, e para se dar bem, precisam decorar a tabuada. As coisas não precisam fazer sentido, basta que sejam memorizadas e tudo está resolvido.

O tempo vai passando e as coisas permanecem desta forma. O Vestibular talvez seja o ponto máximo, o auge, o clímax da "decoreba". Estamos todos sentados nas carteiras, enquanto os palhaços, ou melhor, professores, precisam inventar as mais diversas formas para que os alunos consigam decorar a matéria. Mesmo que daqui 6 meses eles nunca mais consigam se lembrar disto. O importante é que tudo esteja na cabeça naquelas poucas horas de prova.

Mais tarde, entramos na universidade, e a realidade não é muito diferente. Continuamos com as atividades onde as respostas esperadas são exatamente aquelas que estão no livro. Não existe espaço para ser diferente. Todos temos que pensar igual, agir da mesma forma, buscar as mesmas soluções. E isto eu posso falar com certo conhecimento de causa, já que já enfrentei a realidade de uma faculdade particular e hoje sofro com os mesmos problemas na Universidade Federal.

E nem dá para colocar toda a culpa nos professores. Muitas vezes eles mesmo não conseguem implantar propostas diferentes de ensino, por mais que se esforcem. Os caras precisam cumprir prazos absurdos para corrigir provas, fechar pauta e entregar resultados. Posso afirmar isto com segurança, já que a Talita é professora e vejo o sufoco que ela passa. Com isto, eles precisam cumprir a formalidade de alguma avaliação, e o precisam fazer de forma que consigam chegar ao resultado sem muito esforço. Qual é a melhor solução? Questões objetivas! O aluno marca um "X" na prova, e o professor só precisa passar o olho por ali. Em menos de um minuto uma prova inteira é corrigida! Que maravilha! (E quanta ironia de minha parte!)

Não deixar que os alunos pensem é a solução mais cômoda para todos. O esforço do aluno é muito menor, do professor idem, e para o governo, as estatísticas são infladas, o que gera mais votos.

Mas não vamos nos prender no governo e professores, já que, no meu ponto de vista, o maior problema não está aí. Se você está lendo este texto, é pq muito provavelmente já passou por uma escola. Seja bem honesto ao responder esta pergunta: Sua maior preocupação era em aprender a matéria, ou simplesmente conseguir a nota suficiente para passar? Fazendo uma auto-crítica, posso afirmar que em muitas oportunidades meu objetivo foi simplesmente conseguir aquela tão desejada nota. Pouco importava o que aprendi de fato, o que importava era que eu tive a nota suficiente para passar. Alguns ainda se gabavam por conseguir decorar mais que os outros, e consequentemente tirar uma nota maior.

E neste sentido o problema começa desde cedo. Quantos são os pais que sentam-se com seus filhos regularmente para acompanhar o desempenho escolar? Cada um pode utilizar a desculpa que quiser, mas a realidade é que os pais também só se preocupam com a nota. Principalmente aqueles cujos filhos estudam em escolas particulares, já que qualquer problema de desempenho pode significar o pagamento de um ano de escola jogado no lixo. Só para contar um fato que ocorreu com a Talita para exemplificar:

Uma mãe foi buscar o resultado da filha, que tinha ficado reprovada por nota insuficiente. A tal mãe deu o maior xilique, achando aquilo um absurdo, que a escola deveria ter avisado. A Talita informou que a escola havia mandado o boletim, e que a mãe inclusive havia assinado. De fato a mãe tinha conhecimento que a nota da menina estava baixa, mas a escola não havia deixado claro que isto poderia reprovar a filha dela.

Minha interpretação para este fato: A mãe não se preocupa se a filha está aprendendo de verdade ou não. Ela acha que está cumprindo seu papel ao matricular a filhinha de 9 ou 10 anos no curso de inglês e pronto. A nota está baixa? Não tem problema. A filha vai repetir de ano? Calma aí! Isto vai pesar no meu bolso! Isso é um absurdo!

A criança cresce com a visão de que o importante não é aprender, mas tirar a nota suficiente. À medida que esta criança cresce, isto vai se enraizando nela, até virar uma cultura. Isso continua no ensino médio, isso continua na faculdade e o pior: continua em sua vida profissional. Ou será que você, que aguentou este texto até aqui, não conhece ninguém que não tem qualquer iniciativa profissional? Só faz aquilo que o chefe manda?

Este é o maior problema da nossa educação. Nossa cultura não premia aqueles que resolvem pensar ou questionar. O que interessa é conseguir o mínimo para conseguir passar de ano. Isto é cômodo para alunos, já que decorar requer muito menos esforço que aprender. É comodo para pais, já que sentar em casa com seus filhos e lhes ensinar como resolver os problemas irá exigir muito mais esforço do que olhar um boletim a cada dois meses e eventualmente aplicar algum castigo. É como para professores, já que alunos questionadores iriam exigir uma preparação muito maior por parte deles. É comodo para o governo, que não precisa modificar a estrutura atual.

Como podemos ver, em todo o sistema não há nenhuma figura sequer que precise pensar. Uns fingem que ensinam, outros fingem que aprendem, outros fingem que acompanham as coisas de perto e possuem controla da situação. Todos se sentem felizes, todos se enganam e todos saem perdendo.

E o pior é que este é o futuro do país.

Vinícius Ronconi - Se rebelando contra o sistema de ensino