Vou aproveitar hoje uma discussão que tivemos ontem durante a aula de Filosofia: Quais são os problemas da educação brasileira. Muitas teorias são levantadas a respeito, como o problema da má remuneração dos professores, talvez a falta da merenda escolar ou livros didáticos nas escolas públicas. Na realidade acho que o problema é muito mais grave do que isto. E o problema não é apenas do governo e educadores. Talvez ele seja a parte com menor culpa nesta história toda.
Não vou me deter muito nos problemas secundários. Para ser bem direto, talvez até simplista em demasia, se problema de remuneração de professores, merenda ou livros resolvesse alguma coisa, o ensino particular formaria milhares de gênios e pensadores por ano, mas sabemos que não é bem assim. Mesmo em escolas particulares o problema se repete. Os alunos não possuem iniciativa, não são incentivados a pensar. Basta fazer a mesma pergunta de uma forma diferente para ver diversas caras de espanto dentro de uma sala de aula.
Este sim é o maior problema na nossa educação. Nós somos ensinados a simplesmente ouvir o que o professor diz, decorar uma meia dúzia de coisas para colocar num pedaço de papel que insistem em chamar de prova. Prova de que? Só se for da capacidade de memorização dos alunos. Já nos primeiros anos as crianças são reprimidas para se adaptar ao sistema. Seus questionamentos são ignorados, elas precisam calar a boca para ouvir os professores falando, e para se dar bem, precisam decorar a tabuada. As coisas não precisam fazer sentido, basta que sejam memorizadas e tudo está resolvido.
O tempo vai passando e as coisas permanecem desta forma. O Vestibular talvez seja o ponto máximo, o auge, o clímax da "decoreba". Estamos todos sentados nas carteiras, enquanto os palhaços, ou melhor, professores, precisam inventar as mais diversas formas para que os alunos consigam decorar a matéria. Mesmo que daqui 6 meses eles nunca mais consigam se lembrar disto. O importante é que tudo esteja na cabeça naquelas poucas horas de prova.
Mais tarde, entramos na universidade, e a realidade não é muito diferente. Continuamos com as atividades onde as respostas esperadas são exatamente aquelas que estão no livro. Não existe espaço para ser diferente. Todos temos que pensar igual, agir da mesma forma, buscar as mesmas soluções. E isto eu posso falar com certo conhecimento de causa, já que já enfrentei a realidade de uma faculdade particular e hoje sofro com os mesmos problemas na Universidade Federal.
E nem dá para colocar toda a culpa nos professores. Muitas vezes eles mesmo não conseguem implantar propostas diferentes de ensino, por mais que se esforcem. Os caras precisam cumprir prazos absurdos para corrigir provas, fechar pauta e entregar resultados. Posso afirmar isto com segurança, já que a Talita é professora e vejo o sufoco que ela passa. Com isto, eles precisam cumprir a formalidade de alguma avaliação, e o precisam fazer de forma que consigam chegar ao resultado sem muito esforço. Qual é a melhor solução? Questões objetivas! O aluno marca um "X" na prova, e o professor só precisa passar o olho por ali. Em menos de um minuto uma prova inteira é corrigida! Que maravilha! (E quanta ironia de minha parte!)
Não deixar que os alunos pensem é a solução mais cômoda para todos. O esforço do aluno é muito menor, do professor idem, e para o governo, as estatísticas são infladas, o que gera mais votos.
Mas não vamos nos prender no governo e professores, já que, no meu ponto de vista, o maior problema não está aí. Se você está lendo este texto, é pq muito provavelmente já passou por uma escola. Seja bem honesto ao responder esta pergunta: Sua maior preocupação era em aprender a matéria, ou simplesmente conseguir a nota suficiente para passar? Fazendo uma auto-crítica, posso afirmar que em muitas oportunidades meu objetivo foi simplesmente conseguir aquela tão desejada nota. Pouco importava o que aprendi de fato, o que importava era que eu tive a nota suficiente para passar. Alguns ainda se gabavam por conseguir decorar mais que os outros, e consequentemente tirar uma nota maior.
E neste sentido o problema começa desde cedo. Quantos são os pais que sentam-se com seus filhos regularmente para acompanhar o desempenho escolar? Cada um pode utilizar a desculpa que quiser, mas a realidade é que os pais também só se preocupam com a nota. Principalmente aqueles cujos filhos estudam em escolas particulares, já que qualquer problema de desempenho pode significar o pagamento de um ano de escola jogado no lixo. Só para contar um fato que ocorreu com a Talita para exemplificar:
Uma mãe foi buscar o resultado da filha, que tinha ficado reprovada por nota insuficiente. A tal mãe deu o maior xilique, achando aquilo um absurdo, que a escola deveria ter avisado. A Talita informou que a escola havia mandado o boletim, e que a mãe inclusive havia assinado. De fato a mãe tinha conhecimento que a nota da menina estava baixa, mas a escola não havia deixado claro que isto poderia reprovar a filha dela.
Minha interpretação para este fato: A mãe não se preocupa se a filha está aprendendo de verdade ou não. Ela acha que está cumprindo seu papel ao matricular a filhinha de 9 ou 10 anos no curso de inglês e pronto. A nota está baixa? Não tem problema. A filha vai repetir de ano? Calma aí! Isto vai pesar no meu bolso! Isso é um absurdo!
A criança cresce com a visão de que o importante não é aprender, mas tirar a nota suficiente. À medida que esta criança cresce, isto vai se enraizando nela, até virar uma cultura. Isso continua no ensino médio, isso continua na faculdade e o pior: continua em sua vida profissional. Ou será que você, que aguentou este texto até aqui, não conhece ninguém que não tem qualquer iniciativa profissional? Só faz aquilo que o chefe manda?
Este é o maior problema da nossa educação. Nossa cultura não premia aqueles que resolvem pensar ou questionar. O que interessa é conseguir o mínimo para conseguir passar de ano. Isto é cômodo para alunos, já que decorar requer muito menos esforço que aprender. É comodo para pais, já que sentar em casa com seus filhos e lhes ensinar como resolver os problemas irá exigir muito mais esforço do que olhar um boletim a cada dois meses e eventualmente aplicar algum castigo. É como para professores, já que alunos questionadores iriam exigir uma preparação muito maior por parte deles. É comodo para o governo, que não precisa modificar a estrutura atual.
Como podemos ver, em todo o sistema não há nenhuma figura sequer que precise pensar. Uns fingem que ensinam, outros fingem que aprendem, outros fingem que acompanham as coisas de perto e possuem controla da situação. Todos se sentem felizes, todos se enganam e todos saem perdendo.
E o pior é que este é o futuro do país.
Vinícius Ronconi - Se rebelando contra o sistema de ensino