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Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez. (Jean Cocteau)

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quarta-feira, agosto 10, 2005

Os deputados esperam uma pizza

Terminou hoje o prazo para os deputados José Dirceu (PT-SP), Sandro Mabel (PL-GO), Francisco Gonçalves (PTB-MG) e Romeu Queiroz (PTB-MG) renunciassem a seus mandatos para evitar um processo de cassação e conseqüente perda de direitos políticos. Para minha surpresa, nenhum deles esboçou qualquer tipo de movimento rumo à renúncia.

Em minha modesta, e leiga, opinião, este fato indica que os referidos parlamentares não esperam que estes processos terminem de maneira contrária a seus interesses. Por que motivo? Será que são inocentes de fato? Será que esperam que tudo acabe numa grande e amarga pizza?

O único deputado que tenho a impressão de que é mesmo inocente é o Dep. Sandro Mabel (PL-GO). Não é que eu ache este indivíduo um santo, mas é que a acusação que recai sobre ele parece muito frágil ou até mesmo mentirosa. Uma deputada do chamado "baixo clero" do PSDB goiano, em exercício de seu primeiro mandato na Câmara, acusa o Dep. Sandro Mabel de tentar convencê-la a mudar de partido mediante o recebimento de um milhão de reais, mais bônus mensal de R$ 30.000,00.

Tenho a impressão de que se trata de muito dinheiro para um deputado tão inexpressivo. Considerando a compra de 30 deputados, um número muito menor do que a quantidade de deputados que se bandearam para os partidos da base aliada do governo após as eleições da casa, isto significaria 30 milhões de entrada e inúmeras suaves prestações de R$ 900.000,00. Isto sem falar na mesada paga aos outros deputados que compõem a base aliada.

Pelo menos desta acusação, eu acho que o Dep. Sandro Mabel sai ileso. Se não for assim, eu jamais me sentaria à mesa com o digníssimo deputado para um inocente jogo de truco, afinal este cara blefa muito bem!

Já para o Dep. José Dirceu, vejo apenas duas explicações para a não-renúncia: a primeira, infinitamente menos provável, é que ele tenha chegado à conclusão que não vale a pena seguir na vida política. Quando o processo chegar ao fim e ele perder seu mandato, ele volta pro interior de São Paulo, compra um pedacinho de terra e vai lá viver uma vida tranqüila. Já na hipótese mais provável, ele acredita que será inocentado das acusações que recaem sobre seus ombros.

Existe, inclusive, uma estratégia para o caso da pizza não acontecer: Como as acusações de quebra de decoro parlamentar se referem a ações realizadas enquanto ele estava licenciado do cargo de Deputado Federal, para assumir a chefia da Casa Civil, ele não poderia ser julgado pela Câmara dos Deputados.

Não conheço os detalhes da lei que regulamenta esta situação, portanto minha opinião não é embasada por dispositivos legais: se ele apenas se licenciou e pôde assumir novamente o cargo, sem a necessidade de passar novamente por aprovação popular, então podemos considerar que ele não se destituiu completamente dos benefícios concedidos a um deputado. Portanto, se ele ainda possui os benefícios, deveria então cumprir seus deveres.

Torço para que eu esteja errado, mas a impressão que tenho é que estou numa enorme pizzaria aguardando meu pedido. A pizza ainda não saiu do forno, mas o cheiro já está impregnando o ar, de forma que já é possível perceber que algum dos ingredientes utilizados estava completamente podre. E o pior é que ninguém percebeu.

Vinicius Ronconi - Sofrendo os efeitos da indigesta pizza que vem por aí

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