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Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez. (Jean Cocteau)

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terça-feira, fevereiro 22, 2005

Vale a pena tanto sofrimento?

Neste fim de semana vi numa livraria lá perto de casa um livro que me chamou a atenção: "Salvando Vidas", ou algo parecido com isto. O livro na realidade é uma defesa à eutanásia, escrito por um sujeito com conhecimento de causa.

Lendo as orelhas do livro, vi que o sujeito é pai de um menino de 17 anos de idade, que durante um aniversário em sua casa foi pular na piscina, bateu com a cabeça no fundo e foi parar no hospital. O menino passaria o resto da sua vida como um vegetal. Não teria movimentos e pelo que entendi, não seria capaz nem mesmo se se manter acordado sem ajuda de aparelhos. O menino passou dez dias no hospital, lutando entre a vida e a morte, e finalmente a Sra. Morte venceu.

O livro descreve a angústia deste pai durante os dez dias, e suas dúvidas quanto a manter os aparelhos ligados ou não, se valeria a pena continuar lutando ou simplesmente aceitar a realidade. Não consegui ler se o sujeito desligou os equipamentos para que o filho pudesse descansar ou se a morte foi mesmo inevitável.

Seja lá como foi o fim desta história, acho o questionamento do pai válido. Até que ponto vale a pena se valer de tantos recursos em determinadas situações? Será que não estamos apenas aumentando o sofrimento do enfermo e de sua família? Não seria isto um masoquismo sem tamanho, disfarçado das mais diversas roupagens de amor e bondade? E muitas vezes: Será que isto não se passa de um tremendo egoísmo daqueles que estão saudáveis, querendo evitar a morte de um ente, mesmo que isto signifique mais dor para o moribundo? Um egoísmo que não nos deixa pensar no sofrimento de um doente, simplesmente para que não tenhamos que encarar uma realidade?

Pude observar de perto duas pessoas que faleceram devido ao câncer, e vi como a fase terminal é dolorosa. E irreversível, pelo menos com nossos conhecimentos da medicina. Em alguns momentos, uma destas pessoas chegou a pedir que o medicamento que lhe era dado fosse interrompido, para que ela pudesse descansar logo de uma vez. Mas os médicos e parentes insistem em tentar reverter algo que não somos capazes de resolver.

Até que ponto estamos de fato pensando no doente? Se isto fosse realidade, o estudo de células tronco e clonagem não estaria proibido até os dias atuais. Por que se negar a desenvolver algo que possivelmente ajudará a encontrar a solução para algumas das piores doenças que conhecemos?

Se querer estudar célular troncos e clonar seres humanos é querer brincar de ser Deus, será que ficar prolongando a vida de uma pessoa que sofre de uma doença irreversível, mesmo que isso lhe cause mais sofrimento do que a morte, não é brincar de ser Deus da mesma maneira? E o pior, um deus que não é o deus que a maioria de nós acredita, seja ele qual for. Pois o Deus das principais religiões no mundo não são deuses sádicos, que se divertem enquanto observam os doentes gemendo de dor enquando lhes é dado um medicamento para que seus dias de agonia se prolonguem.

Temos que largar o egoísmo de lado, e deixar de usar pesos e medidas diferentes de acordo com a conveniência. Se é para tentar salvar vidas, além de mantermos aparelhos ligados, devemos também apoiar pesquisas e desenvolvimento genético / tecnológico.

Outro fator importante é que, sempre que possível, a palavra final seja do próprio enfermo. Por via das dúvidas, caso isto realmente venha a acontecer algum dia, já deixo registrada minha opinião: Se minha situação for irreversível, podem mandar desligar os aparelhos que me deixam vivo, se é que podemos assim dizer. Doem meus órgãos, cremem o que sobrar para não ficar gastando espaço, que é algo cada dia mais caro e escasso e depois disso já não me importa muito. Façam o que quiserem com as cinzas.

Vinicius Ronconi - Favorável à eutanásia

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