Talvez uma das maiores besteiras inventadas pela humanidade é essa história de que o homem é essencialmente bom. Será que é tão difícil assim enxergar a realidade? O homem é mau, talvez o pior dos seres que habita esse planeta, e ele precisa realizar um esforço incrível para criar uma fantasia de bondade em torno de si. Será que vale a pena ficar se enganando?
Já conversei com algumas pessoas a respeito, e fiquei impressionado como esse pensamento choca as pessoas. Nós nascemos ouvindo aquelas histórias de que o homem é bom, que um neném é um ser puro e angelical e coisas do tipo. Já ouvi várias vezes que "a sociedade é que corrompe o homem".
Se isso fosse verdade, por que quando algum de nós dá bobeira com o rosto perto de um neném de 6 meses ou menos, ele vai nos dar um tapão na cara e ficar rindo depois? Parece que dá pra ler nos seus olhos algo como "viu mané, dá mole aqui perto pra você ver o que acontece! quem manda no pedaço sou eu!". Qual a diferença dele para um mega-traficante que comanda um morro no RJ? Apenas que o traficante possui muito mais armas para poder falar/pensar isso com tranquilidade.
Será que essa linda figura angelical já foi tão corrompida assim pela sociedade? Nessa idade o menino mal tem contato com os pais e alguma visita eventual de poucos minutos de parentes ou amigos dos pais, e ainda assim sempre naquele lenga-lenga de "que gracinha" pra cá, de "guti-guti" pra lá.
Então o tempo passa mais um pouco e finalmente esse menino aprende a falar. Quanta dificuldade pra fazer o menino falar o nome dos pais ou dos avós, mas quanta facilidade para aprender aquele palavrão e matar os pais de vergonha!
Mais um ano se passa e o moleque vai demonstrando outra grande característica da maldade humana: O egoísmo. Esta característica aliás, é a mãe de todos os outros pecados. Todas as mazelas que afetam a vida do homem são derivadas do egoísmo. A necessidade de querer sempre mais para si, te tirar vantagem em tudo, e querer sempre se dar bem a qualquer preço. Que menino nunca teve dificuldade para emprestar o brinquedo preferido, ou oferecer um pedaço daquele sorvete gostoso? Isso pra não falar da facilidade que os meninos tem em arrumar confusão, seja com quem for. E o prazer incontrolável de dar uma gargalhada quando alguém cai ou tropeça? Será que o menino aprende isso em algum lugar, ou é a mesma manifestação do neném que nos deu um tapa na cara lá no terceiro parágrafo?
Creio que nem é necessário falar das características da maldade humana entre jovens e adultos né? Qualquer auto-análise é capaz de nos mostrar isso. Mas existem outros fatos que podem nos mostrar como nós somos os piores seres deste cantinho do universo:
1. Necessidade de desenvolver a solidariedade, generosidade e derivados - Existem várias campanhas para incentivar a participação em programas de ajuda ao próximo, e todos nós reconhecemos a dificuldade que temos para participar. Sejam estas campanhas quais forem: Colaboração com dinheiro, brinquedos para crianças, alimentos, livros, sangue, órgãos. Se o ser humano fosse realmente bom como insistimos em nos auto-entitular, será que essas campanhas seriam mesmo necessárias?
2. A pouca importância que damos ao equilíbrio com o meio ambiente. Achamos o discurso muito bonito, mas o que cada um de nós faz para melhorar o ambiente em que vivemos? São poucos os consumidores que procuram eletrodomésticos com especificações menos agressivas à natureza. Estamos mais preocupados com o nosso bolso do que com o ambiente em que vivemos. Que tal organizar boicotes contra empresas reconhecidamente poluentes? Vivemos esperando que o estado faça alguma coisa pelo ambiente, mas não somos capazes de pegar/oferecer uma carona ao vizinho que vai para o mesmo destino, de forma que tenha um veículo a menos circulando, em nome de uma maior comodidade, ou sob o pretexto de uma maior privacidade. Se observarmos o trânsito, poderemos verificar que a maioria dos veículos transitam com um único sujeito lá dentro. Se houvesse uma utilização mais racional dos veículos, poderíamos ter um ambiente menos poluído e um trânsito menos caótico. Seria tudo de bom, né? Mas nosso egoísmo não nos deixa tomar uma atitude dessas. Indo um pouco mais além, o homem é o único ser de toda a cadeia alimentar capaz de matar sem que esteja com fome ou para se defender.
3. Por que programas como Ratinho, Márcia, Cidade Alerta (e outros do gênero) fazem tanto sucesso? Programas que somente exploram a desgraça dos outros, num voyeurismo sádico, onde esquecemos que se tratam de outros humanos em situações ultrajantes. Nos divertimos tanto com vídeo-cassetadas e pegadinhas, sem nos preocupar com as conseqüências sofridas pelos protagonistas das cenas mais bizarras do planeta. ah, outra coisa que não deve ser descartada: O que leva pessoas a se expor desta forma nesse tipo de programa??
4. Este ponto talvez reflita o clímax da nossa maldade: Quando acontece algum acidente, vamos usar um atropelamento como exemplo, o que te leva a ficar lá parado olhando o desenrolar dos fatos? Por mais que muitos ali fiquem com cara de dor, ou pena, o que acontece na realidade é que todos sentem um certo prazer em estar ali, presenciando a cena, fantasiando os fatos sempre que outro curioso idiota vem perguntar o que houve. Afinal, se estar ali não fosse prazeiroso, por que tanta gente fica em volta sem esboçar a menor ajuda ao acidentado? Em que essas pessoas estão ajudando? Aliás, algumas pessoas com menos desconfiômetro fazem questão de fazer um círculo em volta do acidentado para poder atrapalhar a respiração do pobre coitado que está ali.
Por enquanto são esses os pontos que eu tenho para expor, mas certamente muitos possuem outros argumentos e exemplos para enriquecer este raciocínio. Se eu lembrar de mais alguma coisa, depois eu vou acrescentando com os comentários ao post.
Desta vez eu vou concluir o post de uma forma diferente, colocando uma música que ajuda a ilustrar esse pensamento:
Metrópole
(Legião Urbana)
"É sangue mesmo, não é mertiolate."
E todos querem ver
E comentar a novidade.
"Ó tão emocionante um acidente de verdade."
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre:
"- Vai passar na televisão."
"Por gentileza, aguarde um momento.
Sem carteirinha, não tem atendimento
Carteira de trabalho assinada, sim senhor.
Olha o tumulto: façam fila por favor."
"- Todos com a documentação"
"- Quem não tem senha, não tem lugar marcado.
Eu sinto muito, mas já passa do horário.
Entendo seu problema mas não posso resolver:
É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver."
Ordens são ordens.
"- Em todo caso já temos sua ficha.
Só falta o recibo comprovando residência.
P'ra limpar todo esse sangue, chamei a faxineira
E agora eu já vou indo senão eu perco a novela
E eu não quero ficar na mão."