Arquivo de Pensamentos

Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez. (Jean Cocteau)

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quarta-feira, junho 30, 2004

Expectativa de vida

No início da semana, a população da minha casa recebeu a notícia de que meu tio-avô morreu. Essa notícia por si só é chata, já que ele era um sujeito bem bacana e lúcido, no alto dos seus 92 anos, mas o mais chato é ver como a história aconteceu.

Ele morava sozinho em Madureira, no Rio, e resolveu pintar toda a casa. Certamente isso não poderia dar muito certo né? Quando as filhas souberam, levaram meu tio-avô para o hospital com arritmia cardíaca e insuficiência respiratória. E como nessa idade as coisas acabam vindo no atacado, ele teve duas pneumonias durante o período (cerca de três semanas), os rins haviam parado de funcionar e no dia anterior ao seu falecimento ele chegou a ter uma parada cardíaca, mas conseguiu ser reanimado.

Mas certamente é bom saber que ele viveu muito, tanto em quantidade, como em qualidade. Tive pouco contato com ele, mas certamente era uma compania extremamente agradável, com excelentes histórias para contar. É claro que também tinha seus defeitos, não é pq ele morreu que vou começar e "endeusá-lo".

Vez por outra me pergunto quanto tempo devo viver.. Se for metade do que meu tio-avô viveu, sinceramente já estarei muito satisfeito. De forma geral, a qualidade de vida dos homens tem piorado muito à medida que as grandes metrópoles vem evoluindo, mas por outro lado, a ciência tem evoluído de uma forma incrível, aumentando a expectativa de vida da população. Quem conseguirá vencer esta batalha? Os homens em sua capacidade de destruir, e se auto-destruir, ou a ciência em suas descobertas para dar mais expectativa de vida?

Certamente seria bom se pudéssemos dar uma mãozinha para a ciência, e colocar a mão na consciência por um instante. Afinal, de que adianta a ciência nos possibilitar viver mais, se estamos nos destruindo cada vez mais rápido? Do jeito que as coisas andam, a ciência conseguirá nos dar uma sobrevida, mas chegaremos lá numa situação tão caótica que ficará a pergunta: Será que vale a pena?

A verdade é que todo esse avanço da ciência parece nos deixar cada vez mais acomodados. Dia desses ouvi uma pérola em um restaurante mineiro: um sujeito enchendo o prato de torresmo comentou com um colega: "Depois que inventaram essa tal de ponte de safena eu não me preocupo com mais nada.." Num primeiro momento, esta declaração é engraçada, mas será que no fundo não é essa a nossa postura? Nossos antepassados não precisavam de tantos exercícios físicos pois a grande maioria já exercia profissões que exigiam grande esforço. Mas aí a sociedade foi evoluindo, as cidades foram crescendo, algum infeliz inventou o tal do escritório, um outro a cadeira de rodinhas e um outro o tal do elevador. A partir daí a sociedade nunca mais foi a mesma. Passar o dia todo dentro de um escritório, sem precisar subir escadas e nem andar dentro do escritório era tudo o que precisávamos para nos tornar cada vez mais preguiçosos. Até pra ir na padaria da esquina a gente prefere pegar o carro do que ir andando.

é, não tem jeito.. Posso estar até sendo muito pessimista, mas a cada dia me convenço que o homem é um dos piores seres que habitam este lugar.

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